Cerca de 72% dos brasileiros trabalham em modo de sobrevivência, diz estudo
Postado 04/06/2026 10H40
Pesquisa revela colapso do descanso e do sono no país; estado de alerta constante afeta o
cérebro e triplica o tempo de execução de tarefas no trabalhoO trabalhador brasileiro
atingiu um ponto de esgotamento crítico sob a perspectiva da saúde mental corporativa: a perda da capacidade de descansar.
Um estudo inédito realizado pela heathtech de saúde mental Starbem revelou que 72% da
população trabalha hoje no chamado "modo de sobrevivência", o que corresponde aos níveis mais altos (4 e 5) de uma escala de tensão aguda.
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Como esgotamento no trabalho afeta a sua vida
De acordo com o estudo, o esgotamento deixou de ser uma condição passageira e se transformou em
uma resposta biológica de resposta ou fuga, afetando diretamente o córtex pré-frontal — região do
cérebro responsável pelo raciocínio estratégico, planejamento e empatia.
O levantamento acompanhou 1.868 participantes da base ativa de usuários da startup em tratamento ao longo de seis meses.
Quando desligamos?
Entre as diferentes consequências atreladas ao colapso do descanso, destaca-se uma crise severa do sono:
58% dos entrevistados relatam dormir mal ou péssimo, enquanto apenas 13% classificam seu sono como bom ou excelente.
Os especialistas envolvidos sugerem que, para cada ponto a mais no índice de tensão, a qualidade
do sono despenca 40%. A média nacional de incapacidade de controlar preocupações atingiu 3,82 em uma escala de 5.
Diante dos números, é possível assegurar, segundo a doutora em psicologia Ticiana Paiva, que o
estado de alerta permanente já foi assimilado pela rotina e transformou profundamente as relações sociais e familiares no país.
“O dado mais preocupante do estudo talvez não seja que 72% dos brasileiros estejam em 'modo de
sobrevivência', mas que muitos já não percebam isso como um problema. O estado de alerta, que
biologicamente deveria ser acionado apenas em emergências, tornou-se o modo padrão de funcionamento”,
explica a especialista, que também atua como head de psicologia da Starbem.
Ainda de acordo com a especialista, o conceito de tempo livre foi distorcido. “Descansar deixou de
significar recuperação. Muitas pessoas saem do trabalho, mas não saem do estado de vigilância.
Nas famílias, isso gera um fenômeno silencioso: a presença física sem presença emocional. O alerta
permanente não está apenas roubando o descanso dos brasileiros; está reduzindo sua capacidade de se c
onectar com quem mais importa”.
Cultura de alerta permanente
A análise indica que a crise superou os resquícios da pandemia de Covid-19, consolidando-se como um
traço cultural estrutural. “Mais do que um problema clínico individual, o que emerge é uma cultura do
alerta permanente. A lógica da hiperconectividade, da disponibilidade constante e da alta performance
contínua parece ter transformado a ansiedade em modo padrão de operação”, aponta a psicóloga.
Paradoxo da produtividade
A pesquisa também joga luz sobre um "efeito rebote" no ambiente corporativo: a ansiedade crônica chega
a triplicar o tempo necessário para a execução de tarefas simples devido ao fenômeno da névoa mental
(brain fog, em inglês). Em outras palavras, o modelo atual de cobrança das empresas tem destruído a
própria eficiência do negócio.
“Nunca o Brasil esteve tão focado em performance, mas nunca esteve tão exausto. O problema é que muitas
organizações ainda tratam pressão como sinônimo de produtividade. Na prática, acontece o contrário”, afirma Ticiana Paiva.
De acordo com o relatório, o maior ralo financeiro e operacional para as empresas hoje não é a ausência
causada pelas faltas dos funcionários, mas sim o presenteísmo. “São profissionais que comparecem ao trabalho
todos os dias, mas operam muito abaixo de sua capacidade real. Isso cria um efeito rebote claro: quanto mais
se exige de um cérebro esgotado, menos ele consegue entregar.”
Reabilitação cognitiva
Apesar do cenário alarmante, o estudo demonstrou que o suporte psicológico adequado é capaz de reverter o
quadro de esgotamento profissional de forma rápida. Após o período de acompanhamento clínico, o nível de
foco dos participantes saltou 105% (subindo de 2,1 para 4,3 pontos), enquanto a motivação disparou 173% (saltando de 30% para 82%).
O relatório conclui que o primeiro passo para reverter a crise não é o treinamento de eficiência, mas
restabelecer a capacidade biológica de recuperação do indivíduo.
“O primeiro passo não é ensinar produtividade, mas restaurar a capacidade biológica de recuperação.
Para os indivíduos, isso significa proteger o sono, estabelecer limites digitais e reconhecer que descanso não é luxo,
mas necessidade fisiológica. Para as empresas, o primeiro passo é abandonar a ideia de que saúde
mental é apenas uma ação de bem-estar. Os dados mostram que ela é uma estratégia de desempenho.
O cérebro humano foi feito para enfrentar emergências. O problema é que transformamos a emergência em estilo de vida”,
finaliza a head de psicologia.
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